Mas onde estavam as lágrimas? Não tirava a frase da cabeça, no entanto não vinha uma lágrima sequer turvar-lhe a vista. Começava a sentir-se incomodado com essa apatia, com essa solidez de seu outrora tão flácido coração. O que só o fazia pensar ainda mais na frase - era realmente fabulosa.
Sua "emocionalidade" estava em perfeitas condições, com isso não precisava se preocupar. Aliás, estava até mais emotivo que de praxe - o frio na barriga brotando de quase qualquer coisa, o brilho-poético no olhar era quase perene... Inclusive imaginação e memória estavam a toda, trabalhando veementemente, ao ritmo do Hino à Alegria de Beethoven. Recordações fantasiosas não lhe faltavam. E, ainda assim, sequer um traço de desolação. A frase realmente era boa.
Vale ressaltar, e ele prendia-se repetidamente neste ponto, que quase não haviam más recordações. Houveram, sim, e muitas, "experiências desagradáveis", para descrevâ-las com elegância, mas, admiravelmente, elas não mais importavam. Perdoadas, esquecidas, postas de lado, ignoradas - bem ou mal, não mais importavam.
Talvez fosse obra do espírito natalino / de fim-de-ano. É a dita "época de recomeço", mas a verdade é que não há final. Por isso não deixamos as coisas para trás quando elas acabam - porque elas não acabam.
Utilizando uma frase de efeito, brincando com transitividade: vivemos o presente, vivemos do passado, vivemos para o futuro. O passado não acaba, porque ele nos fez. E vai continuar nos fazendo, se optarmos por continuar carregando-o, em nossa mente.
Aí está o real sentido da "época de recomeço": olhar pra trás e perdoar, olhar pra trás e agradecer, olhar pra trás e sentir saudade, olhar pra trás e deixar pra trás o que for ruim, olhar para trás e trazer o que for bom - fazermo-nos com aquilo que é bom.
E a frase fica cada vez melhor.
Saudade. Ah, a saudade... A doce e carinhosa certeza de que a vida não passou inutilmente... E essa certeza não poderia afastar mais as lágrimas; trouxe também a compreensão - não mais lhe incomodava, agora, a ausência de lágrimas, nem lhe parecia duro seu coração.
Foi num momento como este, ao recordar-se da felicidade, que a frase gravou-se em sua cabeça. E não saiu mais. E nem vai.
Depois de mais um dia sem conseguir dormir após o almoço, foi até a foto da turma e escreveu no verso: see you in my dreams.
E dormiu como um anjo aquela noite.